Quinta-feira, Junho 25, 2009

Link permanente do post abaixo

Poeira

há que se lutar tanto para escapar
é essa a metáfora que sempre nos contaram?
é por aí que vai a poesia, a fantasia...
é isso mesmo que acontece?
a gente caminha, caminha e de repente cansa
chuta tanta poeira pela estrada e é tanta estrada
que enfim se mistura à poeira e se deixa levar pelo vento...

é assim mesmo que funciona?
é só isso mesmo? a graça é justamente essa?
é tanta experiência, é tanto peso levantado que a gente fica forte
fica sim, vai e volta... cansa e descansa
e tudo se inverte... toda inércia me move e às vezes engole
me puxa, distende, comprime...
até o trago de uma derrota amarga cair na poeira,
ser grão pequeno que vira nuvem,
aceitar o fluxo numa briga violenta, vida e morte
se esse é o caminho, sejamos...

Terça-feira, Junho 23, 2009

Link permanente do post abaixo

Diálogo

“Quando um homem começa a falar, até mesmo as coisas mais simples se tornam complicadas e ininteligíveis.”
Hermann Hesse


“Pois mesmo os melhores erram nas palavras quando elas devem significar o que há de mais leve e quase indizível.”
Rainer Maria Rilke

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Link permanente do post abaixo

Migrando...


Segunda-feira, Maio 11, 2009

Link permanente do post abaixo

Sociedade e franqueza...

"Demoraria muito tornar-se misantropo quem se ativesse à observação de outrem. É notando nossas próprias fraquezas que acabamos por lamentar ou por desprezar o homem. A humanidade da qual nos afastamos então é a que descobrimos no fundo de nós. O mal esconde-se tão bem, o segredo é tão universalmente guardado, que cada um de nós é aqui vítima do logro de todos: por mais severamente que pretendamos julgar os outros homens, cremo-los, no fundo, melhores do que nós. É sobre esta feliz ilusão que assenta uma boa parte da vida social."

Henri Bergson
Filósofo francês





Quinta-feira, Maio 07, 2009

Link permanente do post abaixo

da impossibilidade de dizer-se...

perdi a mão
ficou a caneta
superficial,
tentando me dizer

Segunda-feira, Maio 04, 2009

Link permanente do post abaixo

Lembranças

provar o sabor do café
como quem prova o sabor da casa
provar o abraço que aperta forte
como quem prova da alegria e do aconchego
o sabor da fruta
como quem mergulha em água fresca
provar uma lembrança
como que a revivê-la
muito mais intensamente
pois o que fomos, somos sempre mais
viver como que a esquecer de viver
ser como quem é, e prossegue
ainda que só um lampejo faça brilhar um espanto
em meio à escuridão
ainda que eu me recorde, reviva, saboreie, mergulhe e sonhe
apenas de quanto em quando

Domingo, Março 22, 2009

Link permanente do post abaixo

Humanidades

Pensar é nossa sina. Superior, inferior... poesia, filosofia, arte, ciência? Defeito meu, não sei julgar...

****

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

(Vinicius de Moraes)

Sexta-feira, Março 06, 2009

Link permanente do post abaixo

Passatempo

tempo, o que me lembra o tempo
tudo que pulsa como o tempo
tudo que representa o tempo
tento, mas não alcanço
revivo e não basta
passa tempo, passa
que é tudo que sabe ser
vai, porque ir é tudo que te resta
ser sentido como o vento
escorrer como um rio qualquer
espraiar-se indefinidamente
passa tempo, passa
vai, por que se não te sei ser
não compreendi nada dessa vida
chorei em vão e não te acompanhei
vai, segue teu caminho
quem sabe um dia te entendo
abraço teu sentido de passar
e te aceito, ainda que num momento derradeiro

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Link permanente do post abaixo

Drummond

Nem tudo se diz por si. Nada se diz além de si.
Vale por Drummond...


Domingo, Janeiro 18, 2009

Link permanente do post abaixo

Como partir

Com a leveza de saber que nada faz sentido
nem se chega, passa-se
e é passando que se vive, e se morre

Com a agudeza de uma lágrima
mergulhando no fundo de uma gota
lavando o que já se foi

Com um sorriso brando e sereno
aos quarenta e seis do segundo tempo
com muita calma, tanto ainda por acontecer

Com as mãos entrelaçadas no bolso do casaco
caminhando com um vento frio no rosto
sozinhos, sempre, lado-a-lado

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Link permanente do post abaixo

Pulguedo

prazer revisitado: matar poemas à unha!
ouçam bem: verborragia não vale
vocês têm que evoluir, malditas pulgas!
e ainda me atormentam à noite
sugando meu sono...
se nos meus sonhos não há alimento
sumam-se daqui, sigam seu caminho
que eu não sou rota pro norte
e há muito que perdi o meu

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009

Link permanente do post abaixo

Horas

não sabia dar nome às horas da madrugada
até que descobri a suave companhia
dos ventos das horas sem lume

mas o que é que elas têm com isso?
nada, nem existência, nem essência
não passam, começam, nem findam...

Sábado, Janeiro 10, 2009

Link permanente do post abaixo

da arte... realmente faz parte?

um dia o jogo vira
e é bola pro mato
uma balbúrdia dos diabos
uma lata que chama a atenção

se realmente importasse
ninguém prestava tanta reverência
não virava culto, não tinha fã clube
não rendia tanta falsidade

a urina sobre a tinta
seria só urina sobre a tinta
sem sentido, sem apelo
só mais uma impureza no ventilador




Obs.: Apenas para deixar claro: não, não aprecio Andy Warhol. Por que jogar pedras no defunto agora? Não sei, deu vontade... ainda que se percam as pedras.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Link permanente do post abaixo

Fixação

"A única atitude digna de um homem superior é o persistir tenaz de uma atividade que se reconhece inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe estéril, e o uso fixo de normas de pensamento filosófico e metafísico cuja importância se sente ser nula."

Fernando Pessoa
Livro do desassossego

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Link permanente do post abaixo

do que se diz e do que se é

ainda que o não dito
sustente radicalmente o que foi dito
é pelo dito que seremos lembrados

ainda que não me traduza
em aspectos psicológicos analisáveis
(justamente por que não o faço)

uma tal vivência não alcança validade
(toda vivência escapa, e deve)
não há demostração capaz
ainda que pretensamente profunda

em vão laçamos uma verdade
(um mistério que se abre, transparente)
enquanto outros escapam
e nos consomem as vísceras
até que possamos comer, dormir e gozar mais uma vez

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

Link permanente do post abaixo

Livros de poesia

eu, por minha vez, nunca terminei
um livro de poesia
nem de ler
nem de escrever

é um dos orgulhos silenciosos
que carrego sobre os ombros pelas ruas,
que ninguém entende,
que não faz a menor diferença...

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Link permanente do post abaixo

Leminski e a beleza da linguagem

Coletânea de pequenos vídeos de Leminski disponíveis na Internet. Todos relacionados à poesia. Se servir para alguém, bom. Se não servir, melhor ainda.


Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

Link permanente do post abaixo

do medo

o medo é um frio de lascar
a redenção é fina e curta
para quem com ela se importa

os desejos são como o álcool
correndo pelas veias entupidas
a vitória é a ilusão de cada dia
o dia é o o prenúncio infalível da noite
e nem sei quantos pecados já cometi

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

Link permanente do post abaixo

Simples

uma questão de estilo
é mais do que nada
mas é menos do que sinto
então todo rabisco é menos
e é mais, ainda que pouco

tanta confusão
pra coisas tão simples
a urgência da vida
e os laços que se desfazem
se refazem, se transformam

tudo tão simples
assim:
tão simples
tão confuso

e nem dá pra se perder
quando a casa é muito grande
relativamente grande
relativamente pequena
seja ao norte
seja ao sul

tudo, todos são caminhos
e caminhar é o que nos resta
sem destinos, sem porquês...

Terça-feira, Dezembro 02, 2008

Link permanente do post abaixo

Incompletudes

"Reparando, às vezes, no trabalho literário abundante ou, pelo menos, feito de coisas extensas e completas de tantas criaturas que ou conheço ou de quem sei, sinto em mim uma inveja incerta, uma admiração desprezante, um misto incoerente de sentimentos mistos.

Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou seja má – e, se nunca é inteiramente boa, muitas vezes não é inteiramente má –, sim, fazer uma coisa completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer sentimento. É como um filho: é imperfeita como todo o ente humano, mas é nossa como os filhos são.

E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu, que não ouso escrever mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também. Mais valera, pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma que se reconhece incapaz de agir."

Fernando Pessoa
O livro do desassossego