Quarta-feira, Agosto 31, 2005

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Tempo

Existe? Imutável? Relativo? Intocável?

Interpretações físicas, poéticas, filosóficas, subjetivas, objetivas... seja de que ponto de vista for, inquietante.

Poeticamente, propõe Martin Fierro, "o tempo é a tardança daquilo que se espera".

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O tempo passado
O tempo perdido
Jamais encontrado



photo © Darren Hester for openphoto.net CC:Attribution-NonCommercial



Segunda-feira, Agosto 29, 2005

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De(forma)

Para onde foi a forma, esta que deforma
Que desvia a mais perfeita percepção
Que a todo sentimento transforma
Deturpando mais o que já é confusão?

Lançou-se nua aos terríveis infernos
Dilacerou-se entre versos muito quentes
Mas cristalizou-se em passados, eternos
Eis que se lapidou em versos transparentes

E então ressurgiu muito mais brilhante
Inútil sem a força do que seja o conteúdo
Mas sempre atraente, mesmo que por instante
Inaudível, por certo, como que cinema mudo

Em seu esplendor, entretanto, se pôs a chorar
Em busca da alma-conteúdo, ousou falar

Candura
Luiz Ricardo Rech

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Morte do leiteiro

A arte de contar histórias em poesia

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Morte do leiteiro
Carlos Drummond de Andrade

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.


photo © Emilie Villemagne for openphoto.net CC:Attribution-ShareAlike

Sexta-feira, Agosto 19, 2005

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Ciclos

O Filho Que Eu Quero Ter
(Toquinho e Vinicius)

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter

Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim

Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus

Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter

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Ciclos, vidas e nossa abstração não lança luz para além do que já conhecemos muito bem. Os sonhos ainda são os mesmos. Os medos ainda são os mesmos. As alegrias e as tristezas também.

Quinta-feira, Agosto 18, 2005

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Memória Viva apresenta...

Mãos dadas
Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Ouvir


Este e outros poemas de Drummond podem ser lidos e ouvidos na voz do próprio poeta no site Memória Viva.

Sábado, Agosto 13, 2005

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Irreverência em bronze

"O pensador" retratado de maneira completamente inusitada em alguns trabalhos do escultor inglês Barry Flanagan que tem grande parte da sua obra marcada pelo uso do bronze em esculturas de formas bastante irônicas.

Sexta-feira, Agosto 12, 2005

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Coisas que contribuem para a minha misantropia

Ouvir de relance uma conversa em tom indignado, na qual um indivíduo dizia isto:
- Meu, o cara começou com Durkheim?! O cara tá loco, tinha que começar com alguma coisa mais "laiti", tipo assim, Marx ou Engels...


No trabalho
- Que coisa estranha, eu mando imprimir e aparece uma mensagem dizendo que não foi possível comunicação com a impressora. O que será que pode ser?

Antes de começar a elencar todas as possíveis causas do problema, pergunto:

- A impressora está ligada?
- Nossa, não está!
- ...


A caminho de casa
Mesmo sabendo que a besta que todo dia tranca a porta de saída no ônibus não vai descer, eu pergunto:

- Vai descer amigo?

O sujeito invariavelmente olha como se EU estivesse incomodando e ainda tenho que pedir licença.


Nos corredores da vida
Dizer olá e não receber resposta. Dizer tchau e seguir sem adeus.

Quinta-feira, Agosto 11, 2005

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Copy and paste...

"Antes de escrever sobre isso, poxa, vou dar uma rápida consultada no que diz o bom deus a respeito... isso não mudará a minha opinião, será só como um embasamento mesmo".

In god we trust...

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Liberdade

livre é o estado daquele que tem liberdade
liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda
(Curtametragem - Ilha das Flores)

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Liberdade pode ser individual, coletiva, social, política, de expressão, civil e assim por diante. É um termo compreendido universalmente, mas de difícil definição. É um conceito que o ser humano alimenta muito antes de sua expressão verbal. Liberdade faz parte dos mais profundos desejos humanos, está arraigada à essência do seu ser. O ser humano quando enjaulado vira bicho, mas vira bicho pra se tornar livre novamente. Às vezes vira bicho pra não deixar de ser humano. Liberdade pode ser tomada como caminho. Pode ser a decisão de qual caminho tomar. Pode também ser a virtude no abandono dos vícios. Para outros pode ser apenas um sonho que jamais se alcançará. Liberdade para alguns talvez esteja na descrença, enquanto que para outros possa ser um ato de fé.

Sexta-feira, Agosto 05, 2005

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Filosoficamente falando...

"O ato de se estar vivo é a potência para se chegar à morte"

No popular:

"Para morrer basta estar vivo"

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Obs.: Pérolas produzidas no intuito de afastar a sonolência em aulas de História da Filosofia.

Quarta-feira, Agosto 03, 2005

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Mais...

O fato é que os dias passam
Os momentos não ficam
E não adianta o quanto se aproveite
Sempre vamos querer mais...

E esta é uma verdade batida
Não serve nem pra ser repetida
E o diabo é que sempre se repete

(Ironia pouca é bobagem)