Quarta-feira, Dezembro 27, 2006

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Felicidade

O fato é que eu tenho sentido um prazer enorme em me sentir inútil. Frustrar expectativas, dar com os burros n'água. O que mais me inquieta, ninguém fala e do que falam, nada me inquieta, a não ser quando tenho que tirar o meu pijama. Mas aí já nem é inquietação de verdade, é, pura falsidade.

- Não, não estou! O gato está com fome, ou as cachorras precisam de um banho, ou... sei lá... não estou, pronto! E não estou mesmo, não este com quem querem falar.


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Felicidade
Luiz Tatit

Não sei porque estou tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se fui perdendo o senso de realidade

Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos
É muito esquisito!

Não sei porque estou tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato

Ser feliz assim é meio chato
As coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido estou desempregado

Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho sem saída
Sem dinheiro sem comida
E feliz da vida

Não sei porque estou tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí
Fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa
Sem nenhuma novidade
Meu problema era felicidade

Nem fiquei desesperado
Fui até, bem razoável
Felicidade quando é no começo
Ainda é controlável

Não sei o que que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que eu não fiz
Fiz pouca coisa aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade
Por que então tanta felicidade?

Dizem que só penso em mim
Sou muito centrado
Que sou egoista
Tem gente que põe meus defeitos
Em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica
Tanto privilégio de felicidade

Independente dos deslizes
Dentre todos os felizes
Sou o mais feliz


Não sei porque estou tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão
Me deu dor de cabeça
Acabou comigo

Enfim eu já tentei de tudo
Enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti
Vou ser feliz pra sempre

Peço a todos: com licença!
Vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço

Terça-feira, Dezembro 26, 2006

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Vida besta

chegou a hora
bata-se o ponto
recolham-se as coisas
é hora de almoçar
rápido, rápido! pois logo
chega a hora de voltar...

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Esperança

É difícil ser leve quando se acredita mesmo ter quinze mil quilos a mais sobre os ombros. De quem é a culpa se quem se submete sou eu? Por que eu respeito a hierarquia se aqueles que estão acima, na verdade são infinitamente inferiores na minha pueril escala de valores? Medo, conveniência, subserviência?

****
"Um minuto
de
silêncio
antes
da explosão"
(hg)

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A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Biografia
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.

Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.

Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mário Quintana

Sexta-feira, Dezembro 22, 2006

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Rita Apoena

Sobre a janela

Então, quando você me beijar,
vai sentir o gosto da minha escrita,
pois a fim de nunca esquecê-las
eu trago todas as minhas palavras
na ponta da língua.


Sobre a música

A música foi a grande decisão do homem de abraçar o invisível.



Sobre os grandes centros

e só essa multidão que esbarra e esbarra em meus ombros
em alguns anos, terei os ombros esculpidos
pela solidão.


Poste de rua sonhava em ser fone de ouvido

O seu grande sonho era a música, tinha jeito para fone de ouvido. Todos que passavam por ele, diziam: "Ei cara, você parece um fone de ouvido!" e ele ficava bem entusiasmado! Mas a verdade é que trabalhava na prefeitura, como poste de rua... Era um trabalho bastante chato e repetitivo: por volta das 18h45 acendia a lâmpada e, por volta das 06h, apagava. Queria deixar o emprego, ousar, tentar o seu grande sonho, mas sentia-se preso. Alguma coisa o prendia e ele nem sabia o que era...

Aos pássaros que vinham incentivar, ele dizia que era muito difícil: a música era sem garantia. E os pássaros respondiam que não! que saísse logo dali porque mais valia uma vida difícil que besta! Foi então que, quase em silêncio, ele compôs a primeira canção. E foi tão linda e fez tanto sucesso que os siriris não paravam de chegar! ...Chegavam aos bandos, dançando, revoando alados, soltando as asas e se acasalando no ar.

Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

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Mistakes and portraits

Retratos
lrech

Os meus livros não me definem
afinal foram tantas influências
foram tantas promoções
e tão poucos best sellers

Não, as minhas roupas também
não me definem
nasci no sul dentro de um velho jeans
que uso até hoje

A escassa decoração kitsch que imaginei
para um lar que sempre se desfaz
não, não me define

O meu celular, minha tv, meu computador
o carro que não tenho
não, nada disso me define

A roupa que lavo, a louça que não lavo
nada, nada disso me define

A cerveja, os vinhos, o absinto
sinto muito, não...

O homo-faber que não sou
O sonho que nunca fui
Os poucos mistérios que tive
A praticidade, a amizade, a surpresa

A intensidade que não tenho
Nada, nunca, jamais...

****

Erros
lrech

Queria a obra-prima na ponta da caneta
Sempre deslizante, sempre pronta
Sempre bela, sempre altiva, jamais furtiva...

De tanto tentar (muito pouco talvez)
E em caminho tão curto, tanto errar
Mais que força de expressão
Mais que retórica sedutora

Compreendi finalmente:
erro mesmo por cem...

****

Erra uma vez
paulo leminski

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

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Impossibilidades

Eu olho o que já fiz
como se realmente fosse
mas não é.

Se um dia senti, esqueci...
se já tive, não tenho mais
se já fui, não sou

É? Não é.

E será, serei? Um dia? Não sei...

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Quarta-feira, Dezembro 06, 2006

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Transbordo

Todo poeta é patético:
vomita palavras mareadas
sempre que a vida balança

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Terça-feira, Dezembro 05, 2006

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Nasceu um haicai

para Maria Eduarda

A poesia nasceu
de olhos vivos, serena
presente, em paz

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