Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

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Testemunho de essências indecentes

Eu tenho vontades
Tenho um desejo ou dois
Intenções, projetos e insatisfações
Nunca soube o que deveria ser
Na falta de uma definição: sou
Procurei por respostas
As mais importantes foram:
bom dia - boa tarde - chega aí
Recebi ordens: nem todas cumpri
Nenhuma delas me definiu
Joguei muita migalha no chão
Varri sujeira pra trás da porta
Fechei portas de armários bagunçados
Nunca fui consenso
De tudo que pedi, quase nada recebi
E o que me deram foi vital:
Beijos, abraços, carinho e companhia
Não tenho a deus e nem ele a mim
Não vivo no inferno e não sou diabólico
Não fui julgado, não pretendo julgar
Meu juízo, pela média, é insano
Poder eu posso, talvez...
Divertido pensar que sou evoluído
Triste pensar que é mentira
Depois da tristeza? A realidade
Guardo a certeza da mutação
E sua irreversibilidade
Não quero a morte
Muitas batalhas já foram travadas
Já senti o seu cheiro e não gostei
É monótono, monocórdio, definido
A vida é polissêmica, dinâmica
Os cheiros, os gostos e as cores variam
A vida dói imprevisível e indefinidamente
E eu sigo pelas esquinas que passam
Se isso tudo faz sentido ainda estou vivo

Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

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A incerteza das decisões

"Quase morrer é uma experiência tão positiva e construtora do caráter, que a recomendaria a todos - não fosse, é claro, o elemento irredutível e essencial do risco."

Carl Sagan




Extrair do vazio uma certeza, um alicerce forte para o que viria depois. Era só no que pensava. Era a única possibilidade de vida se esvaindo com o sangue que se diluía na água repleta de algas.

Seriam venenosas?

E nada a preencher o vazio, o frio que chegava até os ossos. Onde estaria Deus? A luz que tanto ouviu falar? Um túnel com uma luz, um caminho, lembranças? Nada.

Apenas a solidão que nos ataca em todos os momentos de decisão. Partir ou ficar, sorrir, chorar, sussurrar, gritar. Viver ou morrer. Onde não é possível meio termo. Onde impera uma imponderabilidade crucial.



Sua testa sangrava. O choque com o volante abrira um corte profundo. Não sentia. Movimentou os braços buscando reencontrá-los. Inteiros. As pernas, também. O carro afundava com a frente ligeiramente inclinada para baixo e um pouco para o lado esquerdo. Foi estranho soltar o cinto de segurança. O carro estava em movimento e não funcionariam os freios. A posição influía e o peso da água também. Ajustou os sentidos e por fim soltou o cinto.

Pensou que seu fôlego sempre fora curto ou então que nunca julgou necessário usá-lo, o que, no final das contas dava no mesmo. Jamais o exercitara e agora era tudo que precisava. A solidão era tudo o que tinha pois não havia luz, nem Deus, suas memórias não vieram, seu pai não lhe sorriu, sua mãe não lhe afagou os cabelos de menino que flutuavam suspensos numa água tão fria que paralisava até mesmo os seus medos.

Rapidamente tentou abrir a sua porta. Apesar da resistência da água, devido à inclinação do carro, ela abriu-se de forma relativamente fácil. Sentiu o pescoço doer ao projetar-se em direção à porta aberta. Nem luz, nem túnel. Prosseguiu. Nada havia no carro que não pudesse prescindir. Tudo que precisava estava consigo, tentando fugir de mais uma estatística. Diferente de todo o resto que já fizera, esta porcentagem lhe afetava intimamente. Era como uma arma apontada para a sua cabeça de cabelos finos flutuando, que a mãe não alcançou tão fundo, no frio daquelas águas onde só havia a possibilidade de um ato solitário.

Esgueirou-se pela capota do carro até livrar as suas pernas, inteiras. Braços, inteiros. Seu corpo teso, músculos lutando contra a possibilidade iminente do frio absoluto, de um vazio absurdo e fatal. Sentiu uma certa ardência na testa e um peso nas pernas. Os braços agitavam-se buscando agarrar-se como se estivesse preso num poço e fosse possível escapulir pelas suas paredes lisas. Já não via mais o carro, mas também não havia sinal de superfície. As águas eram escuras, frias e densas de algas, que ele já nem mais se importava se eram venenosas ou não.

A certeza que lhe sustentava era a força de um ato. Cada movimento era a impossibilidade de prever o que viria depois. Não acreditou em por a cabeça acima da linha da água, nem em afundar até bater ao lado do carro com os braços e pernas semi-levantados obedecendo à correnteza e ao centro de gravidade do seu corpo.

Tudo que havia era um movimento, forte, para cima. Tudo que sentia é que este movimento era uma redenção tardia de tudo que não fizera até ali. Um debater-se pelo momento seguinte. O movimento dos braços e pernas era o possível e o além de si que jamais buscara. A sua vida fora, até então, simplesmente flutuar, uma superfície leve.

Se os seus pulmões lhe traíram ou se foram seus braços que não agarraram com força suficiente a resistência da água, não se sabe. Resta, no final das contas, sempre uma incerteza e um movimento que apenas nos impele até um próximo momento, indeterminado e finito, como a vida.

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Esgoto

Me colocaram na escola...
Pronomes no lugar certo, menino!
Nunca gostei
Opa... uma cacofonia!
Vai pro lixo
Mais um poema fecal

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

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Mosaico

Um momento que se vive
Uma dor já esquecida

Um tempo que se foi
E um amigo que voltou

Um gato que me olha despreocupado
Um sentimento que já não volta

Pela janela vejo casas que habitei
Alguns rostos pelos álbuns

Os cartões e as cartas de amor eu perdi
As palavras doces, esqueci

O dez mandamentos, nunca soube
Doutrinas, nunca eu as segui

Muitos medos pelo caminho eu tive
Liberdade, talvez só agora, interpretei

Colam-se as peças na moldura
Agrupam-se as constantes mudanças


Candura
Luiz Ricardo Rech

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

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Homenagem

Poço*

Acordo no fundo do poço
me debato, murmuro, grito
esperneio, me esfrego
nada ouço
apenas a escuridão
o medo o desespero
bate forte
porque estou aqui
jamais saberei
é osso, nada ouço,
nada ouço, nada ouço
Estou no fundo do poço
olho para cima
vejo o luar
luz prateada
a vejo passar
a escuridão
me sufoca
e de novo
nada ouço nada ouço
estou no fundo
do poço.



*Luiz Antonio Bonanato
Poeta, sonhador, professor e artista

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Rabisco

Risco. Rabisco.
Pontua-se e pronto
Do ponto que parto
Nascem incertas
Palavras partidas



Candura
Luiz Ricardo Rech

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

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Perfazer

O perfeito ponto
Parágrafo mais que justo
Leve como que de repente

Essa busca imperfeita ao perfeito

Exato, balístico, impessoal
Conseqüente, transigente

Um grande e desolador vazio
Perfeito, justo, frio... rápido




Candura
Luiz Ricardo Rech

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

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HAD - Incertezas

Da contingência, a liberdade
Um ato, um movimento
A liberdade possível
A luta, a escolha, um olhar
A contingência do amor
que se vive, ou não
Aliterando sentimentos
Redundando o que nem sei

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

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HAD - Evolução

Mais que um macaco evoluído?
Por isso essa flor?
Por isso essa dor?
E nem assim eu convenço...

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

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HAD - Inferno

O diabo que nos carregue
para o segundo dos infernos
para o quinto e para o sexto!
Heresias à parte, viva-se!

****

Inferno


Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

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De como secam os jardins...

Por isso não há flor
neste solo seco
é que o frio foi forte
levou lentamente
o sentido, o sentimento
e as sementes...

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

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Será?

- Parece mentira...
- Parece verdade...
- O que será?
- Sabe-se lá...
- Onde?
- Depois daquela curva que anuncia um vale profundo e obscuro, ali, entre o que se sabe e o que se cogita. Entre o que se conhece e o que realmente é.
- Será?

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

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Maldita misantropia

Não quero ter o direito
de contar uma história
nem mesmo a minha
(muito menos a minha)

E os cronistas burros
de uma sociedade infantil
cantarão tristes canções
medíocres e banais
de vidas que não viveram
de coisas que não entendem

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

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Memórias

É visível o medo em seus olhos. A vergonha em seus olhos e dentes podres, cabelos mal arrumados. Cabelos completamente desarrumados. Toda a sua vida desarrumada, suas roupas, seu corpo, seus pensamentos. Nada está em harmonia e tudo que ela tem de certeza é a imensa vergonha que tem de existir. Fosse só isso (e admire-se a sua força de viver ou medo de se revoltar) e estaria tudo bem. Não necessariamente bem, mas ao menos não estaria de todo mal. Afinal, ela não conta e não é contada, sua confusão nos cabelos é completamente ignóbil e seus dentes não brilham nos olhos de ninguém. Seus olhos não brilham. Enfim, fosse só isso (e já é muito, muito de coisa ruim, de coisa negativa) e ela não faria diferença. E na verdade não faz muita.

Mas a sua vergonha é tanta, seus cabelos tão bagunçados, sua pele tão seca, que envergonha por contra própria, bagunça sem sentir e seca sem perceber também a vida de Lucas, um menino de momentos alegres, que chora pra valer ao cair do cavalinho de mola e seca as lágrimas correndo para o balanço. Não fosse pela vergonha que sua mãe tem de sobra e que compartilha com ele, Lucas seria um Lucas e cresceria, mas é um outro e definha. Sente um peso esquisito, que não sabe direito de onde vem. Peso demais para uma criança, mas que ele carrega. É verdade que sempre tenta jogá-lo fora, escamoteando, pulando, rindo. Ele que tem dez anos e um corpo mirrado, aparentando no máximo seis. Ele não tem os músculos de dez mas carrega um balde, uma vergonha alheia e um caminhãozinho de plástico que ganhou da vizinha, que gosta muito de Lucas. Gosta de Lucas não pela vergonha da mãe (que é o que se vê) mas pelo brilho dos olhos que brilham parecidos com os seus.

Do dia em que Lucas pensou ter feito uma música de sucesso, lembra de ter levado um tapa na cara. Não exatamente um tapa, mas um chega pra lá que ardeu de verdade, quebrou as cordinhas do violão de brinquedo que tocava notas altíssimas e bem bonitas, mas que só ele ouvia. Se isso era música então ela também era artista. Não entendeu direito, porque achava a voz da mãe bonita e também acreditava que ela pudesse tocar o seu violão. Então eles poderiam fazer sucesso juntos. Mas por trás da voz da mãe descobriu uma sensação estranha, uma coisa ruim e entendeu que foi isso que ardeu no rosto. O violão ficou largado dali pra frente, nos fundos da casa, nos fundos da alma e nunca mais tocou.

Se o violão não toca mais no seu coração e a ardência é apenas uma lembrança que se esconde em sua cabecinha pequena, a mãe também não lhe toca mais a face desde então. Não arde nem de medo, nem de raiva, nem de carinho, nem de saudade. Não arde.

O seu rosto apagado é o rosto apagado da mãe, seguindo adiante, multiplicando a semente fria do que ele sabe que não sente, e que isso não é bom. Do choro que lavava os olhos, do riso que esticava a pele e da vontade de cantar bem alto e forte restam alguns vincos que correm de cima a baixo e de um lado ao outro no seu rosto. Tem também, um brilho qualquer que aparece, quando o sol bate do jeito certo no seu olho dando uma vontade, forte mesmo, de voar. Mas passa... sempre passou.

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

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HAD - Intolerável

Se fosse um grito
Se fosse um medo
Se fosse uma dor

Mas não é

O que diabos são
estas coisas que sinto
e que não têm nome?

Domingo, Fevereiro 04, 2007

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Morte

[Do lat. morte.]
S. f.

1. Ato de morrer; o fim da vida animal ou vegetal.
2. Termo, fim.
3. Destruição, ruína.
4. Fig. Grande dor; pesar profundo: 2
5. Entidade imaginária da crendice popular, representada, em geral, por um esqueleto humano armado de uma foice com que ceifa as vidas.


Ausência de tudo o que é vida... A morte não é apenas aquela inefável e absoluta companheira. Morte pode ser a ausência dos que amamos. Morte pode ser o isolamento. Morte é violentar-se. Morte é falta de liberdade. Morte é não poder opinar. Morte é não exercer a condição de SER humano. Morremos a todo instante e não só por nos aproximarmos do inevitável fim. Morremos quando, contra a vontade, nos submetemos. Também se morre quando não expressamos o que sentimos (principalmente quando a dor é maior quando não se fala). Morremos quando nos privamos do que nos faz viver, mesmo que se continue a respirar. Extremo oposto da vida, morte é a privação das possibilidades. Muitas são as vidas que ficam para trás, à direita ou à esquerda, isto não é morte, isto é o que devemos chamar de escolha.

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

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HAD - Poesia e recomposição

A poesia é uma porta aberta
É uma promessa que não se cumpre
na mente daqueles que a compõem
Talvez um pouco mais além...

Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

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Questionamentos

Roberto Freire pergunta: "O que é visível no amor, além dos gestos de amor?"

Eu me arrisco do lado de cá: O que é visível no movimento além do próprio movimento?