Quarta-feira, Março 21, 2007

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Mas o lago será meu novamente...

Se Drummond me visse aqui
atirando estes limões na água
cobraria royalties
ou me confiscaria os peixes?

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Segunda-feira, Março 19, 2007

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Lampejos




Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, guardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.


Marcel Proust





Queria ter na memória a impressão de imagens fortes, bem delineadas, pouco turvas, do que vivera em minha infância. Hoje elas seriam um amparo, já que tudo que tenho é o momento presente (que sempre me escapa). E se o presente é mesmo uma relação de tensão entre o que foi e o que será – mantendo aqui uma certa pureza de sentidos (poderia ter dito virá, e talvez não errasse, enfim...), se isso for verdade – e me parece bastante razoável que seja – o presente é só mais uma das coisas que não temos, mais uma ilusão do que não somos e não podemos pegar, porque insiste em fugir para o passado e se acumular com todo o resto que já não é mais e que mesmo assim me integra.

Procuro definir as tintas que me recobrem na memória. Procuro pelas cores vistas pela primeira vez como se fossem, mas já não são mais. Curiosamente, os muros que se ergueram ao redor dos momentos não esvaziaram as lembranças em diques ou repartições que poderiam vir a me repartir também em momentos históricos bem definidos.

Não há tragédia suficientemente grande ainda, para por fim a estágios específicos em minha mente, não. E não acredito mesmo que isto seja possível. Talvez a força das pequenas perdas, minhas relativas mortes acumuladas no movimento do tempo tenham sido importantes mas não a tal ponto. Se todas estas fases definidas que nos apresentam vêm a ser uma propedêutica do que somos, pensamos ou fazemos, temo que não cheguemos a lugar algum com isso. Sou um movimento que ainda não cessou. Não fui criança, depois adolescente e por fim, adulto. Apenas ainda sou e sigo, em movimento. Mas as memórias ficam assim, meio desfocadas, imagens com baixa definição, pontos esparsos que apenas tingem as imagens de uma cor pouco verdadeira, sem brilho, sem nuances... ou quem sabe, apenas nuances.

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Certa vez houve uma tempestade. Fora, não dentro. Vento, relâmpagos. Eram tantos relâmpagos dissociados de seus estrondos que às vezes parecia vir primeiro o barulho fremente e depois a luz, contrariando toda a lógica do fenômeno. A confusão era generalizada. O telhado se fora, em princípio pelos galhos da árvore que caíra e destruíra os seus sustentáculos e depois pelo vento que abanava telhas que se deixavam ver pelos lampejos, depois desapareciam na escuridão. Tudo isso fora. Dentro reinava uma calma desproporcional, fora de propósito, imprópria mesmo. A chuva já atingia minhas cobertas mas não julguei necessário qualquer movimento... nem de fuga, nem de proteção. A este estado de profunda serenidade meus pais julgaram melhor, mais tarde, chamar de estado de choque, temendo que fosse rotulado de maluco ou retardado pelos outros, ou por eles mesmos, sabe-se lá.

Lembro escuramente de ter sido embalado em meu cobertor, por meu pai, completamente concentrado na atitude de salvamento e fuga. Eu, por minha vez, estava completamente absorto pelos relâmpagos que via e pelas telhas e folhas que eles iluminavam constantemente. Folhas e galhos e telhas pareciam ter o mesmo peso. O vento não fazia esforço extra para levá-los para longe.

Fui depositado no banco de trás do fusca vermelho. Não saberia dizer sua cor naquele momento. Esta é a expressão apenas do que sabia previamente (ou posteriormente). Não me recordo do meu irmão ao meu lado, mas é fato que estava lá. Não acho que ele estivesse com medo, eu me recordaria. Meus pais à frente e um ao lado do outro. À frente, nossas raízes, atrás, os seus sorrisos futuros por trocarem nossos nomes e datas de nascimentos.

A aflição nos olhos de minha mãe em dias (e noites) de tempestade liga-se a tempos que não tenho acesso. Ela nunca nos levou até lá. Nunca nos mostrou o caminho para esta aflição, como se talvez assim ela acreditasse um dia poder esquecê-lo. Nunca esqueceu, o que aumenta ainda mais a minha curiosidade.

Chegamos. Era uma casa que não sucumbira aos encantos do vento tão intenso e onde não chovia nos quartos. Do resto da noite nada me recordo. Mas, como eu disse, são memórias escuras, com lampejos apenas. Nada de que me orgulhe. Não consigo alcançar com clareza os fotolitos escondidos na mente.

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E se talvez buscasse relembrar o dia em que o pai iria retornar? Ele que tanto tempo passava longe de casa e que tanta falta me fazia. O pai, aquele que vinha pelo carreiro que cortava a lavoura e sempre trazia algum presente embaixo do braço como que a pedir desculpas mesmo que nada tivesse feito de errado. Algumas vezes era mesmo o presente que estava errado e não raro as discussões se iniciavam justamente por isso. Não que a exigência fosse em demasia, o que sobrava mesmo era a falta. A escassez proporcionada pelas perdas e pelas dificuldades financeiras.

Quando saíra definitivamente, pela última vez, tive medo de que jamais voltasse. Era a primeira vez que eu teria plena consciência de que realmente nos deixara. Mas o dia era cinza e não foi bem um fato consumado, uma coisa que se situe no tempo com precisão histórica. Foi e foi, só... depois é que percebeu-se.

Do tempo que passou fora de nossa casa, lembro apenas das iniciais em suas roupas, feitas com tinta permanente para que não se confundissem com as dos outros hóspedes da pensão em que morava.

Voltou com um grande dicionário embaixo do braço e um peito estufado, procurando disfarçar um pedido de retorno. Desceu pelo carreiro entre a lavoura e se foi chegando como um sedutor que pede passagem mas não pede ao mesmo tempo. Seu caminhar era de uma confiança misturada com um receio de pedir desculpas que sequer ele sabia se merecia ou queria. Sua boca meio que entreaberta, sempre pronta a exclamar uma continuidade ou a puxar um novo rumo pra conversa.

O grande Aurélio, de páginas muito finas, num papel bíblia profano, como toda a cena que se desenrolava, era o seu jeito de declarar amor por nós que agora poderíamos saciar nossas dúvidas neste oráculo pesado e sempre solícito. Mas o dia da saída não foi mesmo um marco e o da volta estava também muito cinza e frio que nada se definiu, nem culpas, nem desculpas. Ficam assim as minhas memórias indistintas, como já previra.

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Estas sinapses que clareiam imagens cinzas entre as cinzas do que já passou são pequenos farrapos que voam e se entrelaçam numa tempestade que ainda prossegue. Tudo muito incerto, tudo muito intenso. De fato, tudo que já se foi fica de um jeito, fica de outro. Talvez o que fique seja de uma virtualidade construtora e se apegue a outras imagens, a outras virtualidades. A cor que enfim assumem, é essa mesma que deve ser. Se sou um ser movido por estados que não me definem isoladamente, tudo que vi e senti deve mesmo ser o que me impulsiona.

Quarta-feira, Março 14, 2007

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Leituras

Nunca soube ler direito
Sempre tateei no escuro
Meus dedos sempre cegos
lendo mensagens
indefinidamente ocultas
Lampejos correndo pelo corpo
enquanto tropeço nas letras
trôpegas do que insinuas
sob sinuosidades...

Terça-feira, Março 13, 2007

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Os domínios do medo

Se a arte não me vem
Se fico nas sombras
de tudo que se institui
Não, não é porque quero
Não é nenhum ato heróico
É só falta de foco

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Isso é coisa de poeta!, escancarava o pai.
Fulano é um marginal, prevenia a mãe.

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De volta...

Lavínia, Nan e Flavinha, muito obrigado pelo carinho.

Quinta-feira, Março 08, 2007

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Ainda na estrada...

Apenas avisando que não estou tendo tempo para responder os comentários.

De qualquer forma, muito obrigado a todos.

Segunda-feira, Março 05, 2007

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Triângulo imperfeito

O triângulo se completa
numa barra multicolorida
que se forma a partir do ângulo
entre sol e chuva
que meus olhos distraídos
percebem um pouco acima do horizonte
completando a tríade
de lados tortos:
o arco-íris e meu olhar...
subjetivo, subjetivo

Quinta-feira, Março 01, 2007

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Manchete

Extra! Extra! Extra!
Balela! Balela! Balela!
Pode chegar, senhor!