quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pai (Atualização)

Pai, provavelmente eu não seja muito do que você esperava que eu fosse. Sempre tentei impressioná-lo, mostrar como era capaz das mais improváveis piruetas sobre uma árvore caída qualquer, apenas para que prestasse atenção ao meu esforço e tentativa de fazer que sentisse orgulho do filho pequeno, alemãozinho nem tão desejado assim. Planejava tudo isso torcendo para que voltasse para casa, sem entender muito bem seu afastamento. Hoje te respeito, talvez até entenda sua ausência. Não entendo, porém, por que ainda tem tanta desconfiança quanto à minha capacidade de viver. Pai, talvez minha história seja mais parecida com a sua do que possa imaginar. Claro, não perdi meu pai tão cedo - como sei que aconteceu contigo -, não tive filhos, posto de gasolina, casas, dinheiro, não... mas tive medos, anseios, tristezas, amores, amigos, dúvidas, caminhos a seguir, encruzilhadas e becos sem saída. Sinto dores incríveis e vez por outra só durmo com a ajuda do álcool. Solitário que sou, muitas vezes tenho medo do escuro e me sinto sufocado pelas paredes brancas que me cercam e até me oprimem. Já pensei em partir tantas vezes que já não me assusto mais. Se já teve vontade de abandonar tudo e todos, fique tranquilo, sei como é... e não há vergonha nenhuma nisso. Não se sinta envergonhado do que fez. Não é necessário. Viver é mesmo um absurdo, dói, não tem saída e acarreta a morte. A dor sempre volta, eis uma certeza. O sono é uma benção e ter quem se importe conosco é uma conquista, nem sempre justa, deve saber disso. Talvez seja uma questão cultural, algo que nem todo mundo entende. Eu mesmo não entendo muito bem. Às vezes alguém que te pareça serpente tem talento para agir como anjo. Vai entender essas coisas. Vê, pai? Nem tenho tanta experiência assim. Nem precisei ser quem você foi para ser quem você é, não é mesmo? Queria ter sido teu amigo mais próximo, pai. Talvez eu fosse capaz.

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Atualização (19/07/2011):
Tudo isso ainda faz sentido, mas a vida finalmente ensina que toda ação, todo pensamento, todo choro e todo gozo, toda alegria ou desventura, tropeço ou sucesso, um dia acabam... ficam alguns poucos fantasmas e um certo aprendizado, que um dia também não existirão mais...

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Atualização (16/02/2011) - O adeus...

E fomos capazes... grandes amigos por toda a vida, sem nos darmos conta, sem darmos o braço a torcer, turrões que sempre fomos, dizendo que nos amamos apenas nos saudosos e fortes abraços, em silêncio.

Ser seu amigo



Somente o tempo é capaz de atenuar as marcas.
O pai foi um grande ser humano, em sua plenitude, com seus defeitos e virtudes.
Com sua força e carisma e com suas inseguranças. Viveu a vida como deve ser.
(Roberto Rech)


Poema de Natal



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Octacílio Norberto Rech (1926 - 2012)