quinta-feira, 24 de agosto de 2017

a primeira pessoa

só sei falar em primeira pessoa
e nem é sabedoria de fato
é limitação mesmo

mesmo quando o sujeito é oculto
o véu que cai
provavelmente mostra apenas
o rosto que penso ter

o rosto absurdo de quem se sabe pouco
e ainda assim se diz,
se chama, se clama, se sonha, se conduz e no mais
se cala

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

o ridículo heroísmo dos covardes

como é triste e patético aquele empregado poeta sonhador do que nem sabe se realmente quer. como é estúpida e sem graça essa adolescência infinita que o define e constrange. e essa ridícula ilusão de achar que o que pensa, diz e faz tem alguma importância.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Cinco

"...não há estado de alma, por mais simples que seja, que não mude a cada instante, pois não há consciência sem memória, não há continuação de um estado sem adição, ao sentimento presente, da lembrança de momentos passados. [...] A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente, seja porque o presente encerra distintamente a imagem incessantemente crescente do passado, seja, mais ainda porque testemunha a carga sempre mais pesada que arrastamos atrás de nós, à medida que envelhecemos. Sem esta sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas somente instantaneidade"
[Bergson]
Dialogar com memórias é um exercício bonito e necessário, sempre. Algumas vezes doloroso, outras vezes leve e descontraído, mas sempre enriquecedor.
♫♫He was guiding me / Love, his own way



sexta-feira, 3 de junho de 2016

In the end...

no final das contas... no final das contas, não haverão contas.
nada mais a lamentar, nem túnel, nem luz, nem caminhos a seguir.
free as a dead bird.
ponto, final.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Está na hora de deixar o banco...

Amanhecer em Copacabana

Antônio Maria


Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos , que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obscuridade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isso, no amanhecer de Copacabana.

As pessoas e as coisas começaram a movimentar-se. A moça feia, com o seu caniche de olhos ternos. O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca. O bêbado, que vem caminhando com um esparadrapo na boca e a lapela suja de sangue. Automóveis, com oficiais do Exército Nacional, a caminho da batalha. Ônibus colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono. O banhista gordo, de pernas brancas, vai ao mar cedinho, porque as pessoas da manhã são poucas e enfrentam, sem receios, o seu aspecto. Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos — pelo estado em que se encontra a maquillage, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, não se tem o que ouvir.

Enerva-me o tom de ironia que não consigo evitar nestas anotações. Em vezes outras, quando aqui estive, no lugar destas censuras, achei sempre que tudo estava lindo e não descobri os receios do homem gordo, que vem à praia de manhã cedinho. E Copacabana é a mesma. Nós é que estamos burríssimos aqui, neste banco de praia. Nós é que estamos velhíssimos, à beira-mar. Nós é que estamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade. Um homem assim não tem direito ao amanhecer de sua cidade. Deve levantar-se do banco de praia e ir-se embora, para não entediar os outros, com a descabida má-vontade dos seus ares.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Resumo da ópera: os golpes de Beto Richa

Resumo da ópera: o tirano envia um pacote de medidas criminosas para ser votado pela assembleia, depois de quebrar o estado. 

Os servidores públicos se levantam e impedem. 

O tirano fatia o pacote e finge debater com os servidores. A votação sobre a Paraná Previdência é retomada. O tirano vai à justiça e argumenta que a Alep está em risco. O tirano solicita proteção policial (RONE, ROTAM, CANIL, CAVALARIA, COE, BPFRON, etc.), alegando que cumpre determinação da justiça. 

A Alep lava as mãos e diz que vai votar o projeto porque “A bomba não é aqui dentro. Então vamos votar.” As tropas de choque afirmam apenas estar cumprindo ordens da Secretaria de Segurança Pública. 

E no final das contas a culpa, claro, é dos manifestantes.

Será que precisa desenhar para que todo mundo entenda que a culpa NÃO é dos manifestantes? Algum cartunista à disposição para esclarecer os que têm limitações graves na percepção dos fatos?

Traiano
Que bela frase para o currículo, hein?!

terça-feira, 5 de maio de 2015

O silêncio de muitos, me entristece e assusta...

"Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
[...]
Tanta mentira, tanta força bruta
[...]
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento"





















Eu cheguei a acreditar que não haveria violência. Ingenuidade a minha. O carro de som conduzia as pessoas de maneira exemplar, em momento algum incitando violência ou agitando os manifestantes, justamente para evitar que o pior acontecesse. Mas isso não seria suficiente, não com um comando militar instruído a colocar todo o aparato repressor para marchar sobre nós sob o pretexto de qualquer provocação. E, infelizmente, foi o que fizeram. Afinal, como justificariam aquele contingente de tropas (BOPE, CHOQUE, BPFRON, COE, CANIL, ROTAM, RONE,  CAVALARIA, etc.) mobilizado lá e sem agir?

Tristes cenas de um país que tem uma classe política tão baixa, desumana, corrupta e, como vimos e vivemos nesse dia, violenta e ditatorial.

Como tenho dito e repetido incansavelmente: não esqueceremos, não deixaremos que se esqueçam! Agora é esperar que os deputados vendidos, covardes e irresponsáveis venham até suas "bases". Estaremos aqui esperando por eles. Que venham explicar todo aquele sangue que foi derramado e que agora mancha suas mãos. Terão coragem ou serão covardes? Nós não fomos!

29 de abril de 2015, um dia no qual a democracia sofreu mais um golpe e sangrou. Vamos curar as feridas e continuar na luta para que ela siga viva, ainda que cambaleante.

Todas as fotos desse dia triste que não poderá mais ser esquecido, aqui.
Todos os vídeos, aqui.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Sabotador analítico

O sabotador em mim, mata toda tentativa
e a esconde embaixo do tapete da responsabilidade
em todos os dias, em todas as horas,
em todos os instantes, em todas as obrigações

O analítico em mim, mata toda a poesia
e a esconde embaixo de um tapete felpudo,
em todos os dias, em todas as horas,
em todos os instantes, em todos os sonhos